O cheiro de mel com tabaco, bem fraco…
O suor tem cheiro de flores do campo.
Mas não o perfume barato. É o que você,
normalmente, imagina naquele comercial pago e irritante da TeVê, sobre amaciante.
Antes, de se decepcionar com o odor real, claro!
Mas não nela… de pele macia, pétala em flor,
Sentado na calçada, ao lado de qualquer que fosse o carro,
ouço crianças correndo no som ambiente de fundo, risos e resmungos.
O chão ta molhado da chuva que se deu, quase agora, água ainda escorrendo no asfalto.
Os carros que passam, com pressa, são poucos
e abrem espaço vazio, na visão que eu tive do bairro.
– Parece meio parado! – Penso alto.
Olhares distantes da praça me fazem perder a chegada, mas logo saio do transe
pra vontade de transar.
– Salve! …suave quebrada? – Fazendo sinal de Vitória com os dedos, que antes seguravam um pacote de seda e o dichavador de madame.
– Posso sentar?
Porra! Não fode!
– Claro que pode. – Sorrio, respondo, me escondo!
As intenções vão a mil, mas o papo continua sereno.
Acho que é viagem minha, toda vez, mas ela tá me querendo…
Fumaça, cerveja e conversa,
ora sobre o clima, vezes sobre o tempo.
Não! Não é papo de elevador… vai por mim. – hehehe
Assim, assunto fluindo, ela enrola um fino enquanto tragamos.
Ela vem, de shortinho atolado mostrando a natureza,
tem pássaro, peixe e mato; tem sonhos, beleza e um gato.
Me enchendo de mimos mundanos,
agridoces, meio-amargos, recheados,
qualquer droga que dispare os tais triptofanos…
…ou será que eram triptofenos?
Bom, sei lá, qualquer um desses venenos.
Parece uma bruxa, temperando a criança com ervas finas.
Enfim, me sinto defumado até o recheio.
Entra no assunto de propósito, pronta pra lançar a rede. – É nada!
Me chamou pra ver um romance na tela e comer macarronada.
– Bora, marca na agenda aí… você tem que ir comer lá em casa!
– A gente bota o filme que eu queria ver e você me faz companhia. Afinal é romance, eu sei que vou chorar no final. – Esse é o tipo de proposta indescente que a gente não costuma recusar. Nem por educação.
– Vai ser bom ter alguém comigo depois. – E faz cara de quem quer me beijar. Só que agora…
Os carros, agora, aos montes. Faróis ofuscantes na via.
Não tem mais o som de crianças… escuro, só nós, encostados no muro.
O cheiro de chuva se foi, o dia virou outra coisa.
Passos que se apressam, apertam ao passar por nós… sorrimos.
Voltando atordoados pros devidos ninhos… são todos vizinhos.
A luz amarela de fora, agora é quem dita a cena.
Despede com olhos em prosa e vontade de ficar mais um pouco.
Eu também, confesso. Mas entenda, há um certo segredo na nossa contenda.
É como se a luz amarela soubesse de nossas intimidades, e só ela.
Devaneios, talvez singular, e sorrisos se fundem em uma dança silenciosa de mãos,
que se despedem, se sentem, se alisam, se ferem…
A verdade é que há um encanto inexplicável nesse momento,
em que despedimos com olhos que querem se perder um no outro,
mãos que não querem deixar e pés que se afastam por conta.
{O sorriso involuntário, o “tchau extra” e a olhada pra trás…} = Famoso Kit Paloso,
também entra em cena e apronta. Não dá pra controlar.
Não com a nossa quase história. Com nossas quase memórias.
Quase beijos, anseios e apertos no peito.
Mas só quem sonha nossa verdade, nua e crua,
é a lua… e vez ou outra as luzes da rua.
