(…)
Muitos cheiros misturados nesse ambiente.
Minha mente vagueia por dentro e pra fora.
Inebriante, – me vem à mente – talvez seja a palavra certa
pra essa mistura de café bom com especiarias,
se é que posso chamar assim,
o acompanhamento que se fez presente.
Não me entendam mal, eu tenho um certo carinho por coisas quebradas.
Gosto de desmontar, montar, remontar e fazer voltar a funcionar.
Ah é! Os odores desse lugar…
Café, suor, sexo, perfume barato e cigarro.
Tudo junto, parece incenso de templo,
embora esse pareça abandonado.
Só tem eu aqui… eu e…
Deve ser isso. Eu alucinei, por um segundo,
uma entidade, daquelas que o povo descreve nos terrores noturnos.
Sabe aqueles demônios que sentam na gente à noite?
Daqueles sonhos em que você está acordado, mas não consegue se mexer?
Mas isso não era pra ser um texto descritivo.
Ao menos, era pra ser uma narrativa.
Tenho certeza que estou acordado, mas não me movo.
Não é medo dessa vez, não é terror, tão pouco noturno… são quase três da tarde.
Realmente tem uma entidade física sentada no meu peito. Ela sorri pra mim.
Acredito que o Shintō [神道] têm um nome pra esse tipo de entidade,
Serpente Constritora [縛蛇], se não me engano.
Essa parece ser uma variante, no entanto.
Está mais pra Serpente Sedutora [誘惑 蛇]… e, mesmo assim, me falta o ar.
– O que ela quis dizer com esse bilhete? – Ah vá! Você não é inocente…
Queria muito descrever o quanto eu sou indecente, incoerente e displicente.
Em todo o caso. Sem mais. Mas…
Em todo caso, sou displicente, não é mesmo?!
– Não que eu não esteja gostando da vista, adoro meias… – mera pausa dramática – só acho justo ter espaço pro café. Ou você quer que eu engasgue?
– Miau. (tentando soar como “uau” talvez, enfim.) – Ela realmente disse isso… por qual motivo estou com vergonha alheia aqui?
Ela se joga pro lado, sem tirar os olhos de mim.
Uma espécie de hipnose mesmerismo, próprio das serpentes.
Ou talvez, se ela tirar os olhos de mim,
eu desapareço. – o que pode, bem, ser verdade.
To começando a achar que ela também me vê como uma entidade qualquer.
Se aninhando no meu peito,
ela parece dançar,
enquanto uma brisa estranha,
quase sobrenatural passa por aqui,
em meio ao calor escaldante desse domingo, – hoje é domingo né?
mais diálogos desnecessários se passam entre nós.
São quatro e quinze agora.
O que restou do café,
uma mancha feia no fundo da xícara,
está gelado e ácido. Intragável.
Então, faço menção de me levantar.
Quero me lavar,
tirar esse cheiro de mim,
já não basta estar no ar?
Ela, obviamente, não permite.
Levantar, ok, mas não que eu me lave…
Diz que vai cumprir
a segunda parte do bilhete,
que vai me alimentar.
Tenho que admitir, ela sabe cozinhar.
Coloca de volta, o tal avental,
que de tão indecente, mal cobre os seios…
e apenas um laço mal dado, às costas.
Segura os cabelos, que agora reparei, parecem menores,
os prende com algo que parece uma caneta, mas não é…
Tudo aqui parece falso. O vaso,
o ‘casal de namorados’, as flores de plástico,
o beijo encenado, antes de sair por uma porta ao lado…
tudo combinado. Dela com ela mesmo. Claro.
Acho que meu corpo resolveu entrar na dança.
Até eu pareço desenho animado.
Me dirijo ao cômodo previamente citado,
pra um lanche, que também foi mencionado.
A janela, o quadro, o espelho, um sofá e tudo balança.
Acho que ainda estou bêbado,
e parece que vou fazer alguma cagada pra confirmar.
A seguro pelos cabelos dourados,
um puxão se fez, mesmo com os dedos abertos,
acho que estavam emaranhados.
Até que ela vira o rosto, na minha direção,
lentamente… desculpem, mas na minha cabeça foi em câmera lenta.
De bochechas vermelhas,
com aquela voz fininha e falhada, – a gemer… pra que?
como se imitasse uma personagem de desenho mesmo…
Eu quero tanto bater nela por isso. Mas meu tesão não deixa.
Ela está totalmente submissa, se apoiando em mim desse jeito,
se fazendo de tímida enquanto deixa escapar um peito,
parece perdida, mas no controle total da situação. – creio que ainda não disse,
“nesse texto”: MALDITA!
Me senti num daqueles filmes do XvídeosTM,
sem roteiro nem nexo, sem motivo aparente pra ação,
sem câmeras, porém, muito bem estruturado,
atuação, fotografia e iluminação dignas de um Oscar,
é quase como se Quentin Tarantino resolvesse filmar um pornô.
Ainda que nada tenha acontecido nesse domingo, foi como eu me senti.
Estou estranhamente à vontade, num lugar falso, inóspito,
um cativeiro montado, um verdadeiro picadeiro ou palco,
sem plateia e de elenco mal arranjado, improvisado
… e adivinha quem é o palhaço?!
Percebendo o mal calculado enredo.
Me atrevo. Despeço sem dar motivos.
Ainda arisco, com medo, arrisco e me visto.
– O lanche tava ótimo.
– Devo levar em conta tudo o que você comeu?
Ou tá falando só do pão mesmo? – com o sorriso leve até então.
Porque ela ainda está nua?
Não pergunto nem me respondo. Só desapareço.
Tudo saiu, exatamente como ela previa.
Aquela historia de que o barato sai caro… não aceito carona.
Não quero entrar de novo naquele carro.
Por fim, vou andando pra casa.
Não que eu saiba onde estou,
mas por instinto consigo me locomover.
Quanto aos meu caros leitores,
espero realmente tê-los decepcionado.
É o que faço de melhor.
Realmente não quero,
mas conhecendo a mim como conheço,
aguardem a parte três. (Λαβύρινθος)

Um comentário em “Promessas Quebradas [Pt.2]”